quinta-feira, 16 de junho de 2016

Há dias em que mais vale não sair da cama

Uma gaja não dorme nada porque o miúdo está constipado e não consegue respirar (obrigada S. Pedro).

Uma gaja tem que aguentar o mau humor do chaválo e suas birras matinais enquanto conta historinhas para o distrair. Era uma vez um triangulo que queria ir para a praia mas estava a chover e não podia e então resolveu ligar ao quadrado e  combinaram ir ao shopping e blá blá blá e ni ni ni  e ti ti ti ...

Uma gaja tem o puto a massacrar-lhe a cabeça em modo replay : não- que-ro- ir- prá- es-co-li-nha, não- que-ro- ir- prá- es-co-li-nha, não- que-ro- ir- prá- es-co-li-nha, não- que-ro- ir- prá- es-co-li-nha

E uma gaja entra em modo inspira-expira, inspira-expira, inspira-expira...

E uma gaja sai de casa e está a chover torrencialmente e mal sai do carro, à porta do infantário, mete a sua delicada sabrina numa poça de água e fica com o pé encharcado e o frio sobe pela espinha acima. Abre o guarda chuva e  tem uma mão a segurá-lo e outra a tentar tirar o  puto da cadeirinha e o guarda chuva está quase a levantar voo e está ali outra poça que me impede de aproximar muito do miúdo e chove a cántaros, e ainda são 8h10 da manhã, e apanha ali a mochila do rapaz mas tens uma mão no guarda chuva e outra no miudo e óh caralho que chove muito e o puto faz birra ao portão que não quer entrar e continua a chover e ele chora que não quer entrar e só me apetece berrar e ainda são 8h10 da manhã... e uma gaja entrega o miudo faz inversão de marcha e vai para o trabalho, apanha outra molha para entrar e quando chega à secretária olha lá para fora e... já não chove...

E uma gaja tem a cabeça a doer de tanto não- que-ro- ir- prá- es-co-li-nha, não- que-ro- ir- prá- es-co-li-nha, não- que-ro- ir- prá- es-co-li-nha, não- que-ro- ir- prá- es-co-li-nha e tem os pés encharcados e o cabelo feito num ninho.

E a malta começa a perguntar como está a senhora e eu respondo: está a melhorar mas no fundinho penso: rais parta a velha que está para morrer e nunca mais morre e eu tive que cancelar as férias e perdi uma pipa de massa e a velha que estava quase a morrer afinal não morre e ainda vou eu primeiro que ela e deixem-me em paz que eu tenho mais em que pensar, e quem não vai de novo tem que ir de velho...

E uma gaja entra em modo inspira-expira, inspira-expira, inspira-expira...

E ainda são 8.30 da manhã.

E uma gaja entra em modo inspira-expira, inspira-expira, inspira-expira.

E pronto, vou começar a trabalhar.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Da velhice

As pessoas vão envelhecendo lentamente e a conversa é sempre a mesma, coisas dos vizinhos, histórias antigas... E a sua companhia torna-se maçadora, são chatas, a conversa entra por um ouvido e sai por outro.

Depois envelhecem mais um pouco e já ouvem mal para quê estar ali com conversa da treta se temos que repetir tudo 3 vezes, que chatice, o melhor é lá ir de vez em quando.

E assim se diminui a frequência do convívio.

E o tempo passa.

E passa.

E passa.

Até que cai numa cama de hospital. Já não ouve, já não se percebe o que diz mas como está numa cama de hospital já se vai para lá segurar na mãozinha para que a sociedade não pense que está abandonada, um dia, dois dias, três dias... os que forem preciso porque não fica bem deixá-la ali sozinha.

E a minha questão é só uma: porque não ter feito o "sacrifício" enquanto a pessoa estava em condições mentais de saborear a presença alheia e guardar na mente essas imagens, em vez de fazer sala obrigatória quando já nem se reconhece quem lá está?


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Segurem-me que não me responsabilizo pelos meus actos

O Eduardo, quase a fazer os 3 anos, entrou este mês para o infantário. Por muito motivos que não me apetece explicar.

Todas as manhãs é o mesmo ritual: chora e grita e berra. E uma mãe fica de coração partido e com vontade de o enfiar dentro da nossa barriga outra vez numa tentativa de protecção máxima.

Hoje disse-me que há um menino que lhe bate, que lhe faz doí doí.

E eu fico cega de raiva e sobe uma coisa por mim acima que não sei explicar. Chego ao infantário e o meu filho desata aos berros desesperado e eu digo-lhes o que se passa.

- É o Luís -  diz a auxiliar e outra mãe presente também confirma que a filha se queixa dele. E volto a ser possuída por uma raiva e ânsia de encontrar esse puto e enfiar-lhe dois bananos naquelas fusas, segurá-los pelos colarinhos e dizer-lhe:

"ouve lá seu filho da puta se voltas a aproximar-me do meu filho eu mando-te para o hospital e aos teus paizinhos também porque não te sabem dar educação!"

Pronto. E é isto. Estou  aqui a ferver, anda uma mãe a criar um filho meigo para ele ter que conviver com canalha irrequieta e bruta.

Já lhe dei conselho de mãe: filho, quando te baterem tu bates também, mas com força, MUITA força. A mãe não ralha, não faz mal.

...

E uma pessoa escolhe um infantário 100% privado onde nos levam couro e cabelo, todo cheio de não-sei-quês, a pensar que estamos a proteger o nosso filho desses vândalos, selvagens sem maneiras e vai-se a ver e afinal há putos violentos e mal educados em todos os lados. Nada que eu já não soubesse, mas é daquelas coisas que queremos acreditar que só acontecem aos outros.

E agora? para começar logo vou perguntar à educadora que caralho andam lá a fazer que não metem o chavalo na linha e porque o deixam ser agressivo para os outros meninos!!!

Estou furiosa!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


sexta-feira, 3 de junho de 2016

Comentário que vira post - os conselhos de não violência passaram a crime??? a taróloga que aconselha o amor é uma bruxa má???

Facto: uma taróloga da televisão aconselhou uma senhora vitima de violência domestica há 40 anos a dar amor ao marido e a não provocar com violência. A vitima tinha ligado para o programa para saber SE O MARIDO TINHA UMA AMANTE (e não se seria o momento ideal para o deixar ficar ou coisa que o valha).


Vamos lá ver uma coisa: não é preciso "ver nas cartas"para saber que a espectadora abusada há 40 anos não vai denunciar o marido nem deixá-lo. Se tivesse tido condições, monetárias ou emocionais, e CORAGEM já o teria feito há muito tempo. Não é agora que a vida dela vai mudar porque isso implica tomar uma atitude e claramente não o vai fazer. É submissa, de outra geração, e pronto a taróloga não tem culpa
.
A taróloga não cometeu nenhum crime. O criminoso é o marido da senhora e ela é conivente porque não o abandona porque não quer. Ponto. O DIVORCIO É LEGAL EM PORTUGAL!

A taróloga aconselhou-a a não ser violenta. Correcto. O que queriam que ela dissesse: "olhe, atire-lhe com a panela de pressão à cabeça"?!

Se durante 40 anos a senhora não tomou uma atitude não é porque agora estranhos na tv ou na net lhe digam "abandone-o, faça queixa à policia" que o vai fazer.

Já estou um bocado cansada desta história de coitadinhas e tal. Há pessoas que esperam que sejam os outros a resolverem os seus problemas. Porque não se separou? Porque não quis. Ponto.

A senhora deve ter ficado toda satisfeita por saber que o marido não tem outra porque essa é que era a dúvida existencial que a perturbava...